quarta-feira, 20 de julho de 2011

Põe uma preta aí!

créditos:http://www.amenidadesdodesign.com.br/2010/05/posters-antigos-de-cerveja.html



– Põe uma preta aí... Seu Ramiro!
– Peraí...deixa eu ver este troco aqui...
–  Me vê também um amendoim do saco verde, faz favor.
– Toma aí...
*
­– Fala aí Motilho...
– Fala...aê...Geraldo! Seu Ramiro...ô Seu Ramiro...
   põe uma branca aí pra mim.
– Peraí...Ô Neide...Ôoo Neide...Serve aqui no balcão pra mim,
   minha filha!
– Ihhh! Tá enrolado (risos)
– Deixa eu ajeitar esta antena aqui....Ô Neide tem copo pra
   cacete aqui no balcão...Neide!!!

Tshshsh! Tshhhh! Ouvimos Bee Gees com Stay...tshhhtshss

­– ...Booora Seu Ramiro que tô com a garganta seca....
      Grande Geraldão! Só na pretinha...
– É rapaz. A preta não me larga e eu não largo a preta.(risos)
– Aquele alí...(aponta com o copo na mão)....não larga a loura...
– Este entende de loura, Geraldo! E pelo jeito tá “pegando”
   ela desde cedo.
­– Ô Waldemiro! Para de olhar pro tempo rapaz!

(Waldemiro acena curto com a mão.)

– Waldemiro! Não encosta assim com esta cadeira de plástico...
    Tu vai cair daí...rapá!
– É mania dele Geraldo.
– Rapaz...não tem ninguém jogando sinuca hoje...
   Que milagre!
– Seu Ramiro, não vendeu ficha hoje...
– Ué!? Que “c’ouve”? Tá rico...
– Se encheu da branca ontem...
– Seu Ramiro bebendo cachaça?
– Não rapaz...a Branca...Sabe aquela branquela que vem aqui!
– Ah, a manicure!
– Esta mesmo! Ontem depois que fecharam as portas...foi
   palavrão pra tudo quanto foi lado...
– É mesmo rapaz...
– Tu sabe que ele se amarra numa preta...
­– Ih! Rapaz...Ela pegou seu Ramiro com a boca na butija!!
– Não...não! Depois que baixa as portas ele bebe uma cervejinha
   preta com ela às quartas.Como tu bebe aí....
– Ah! Entendi...mas o que tem a preta com isso?
– Ele descobriu que a manicure sai com o cara do caminhão
   que traz a preta! Foi desgosto só! Falou comigo mais cedo
   que não quer confusão no bar hoje não! Tá numa dor de
   cotovelo que só vendo...
– É tô vendo...Tá todo enrolado hoje...Coitada da Neide!


– Motilho, toma aí a garrafa e se serve...

Thsss Só vou te contar porque você já é de casa...tshhtshh

– A loura tá um gelo hoje...
– Até que não tá não...ficam abrindo o freezer toda hora pô!
­– Não, Waldemiro...tô falando da Neide, lá da cozinha...
   Pra aturar o Ramiro...Oh..Fica quietinho na tua aí...Waldomiro!
­– Tem que ver o negão que tá comendo a manicure...
   Aí fica ruim pro Seu Ramiro!

– Ô NEIDE! DÁ UMA VARRIDA NO SALÃO, NEIDE!
   O CHÃO TÁ UM SEBO, NEIDE!Ai meu Ogum...
(faz com as mãos pro São Jorge acima das prateleiras)

Tshhh...Tudo me interessa, tudo tem mistério, sou devota...

– E o pior... Ô negão pega a loura também que não é fácil...
– Pô o negão tá comendo a Neide, também!!!!!
– Não, não...o negão é cliente da casa, rapaz. Bebe muito...
– Quer dizer que o Seu Ramiro se encheu de preta por causa
   Da branca que saiu com preto!
– E por isso esquenta a loura!   (risos)
– Que papo de botequim, hein! (risos)

– Ô NEIDE....TRAZ ESTA CAIXA DE CIGARRO AÍ
   EM CIMA DA MAQUININHA! VAMBORA NEIDE!

Tshhh. Esta foi Preta Gil com Estéreo...tshshshs

­– Ih! Olha a preta aí....(indicador em riste, próximo à orelha) (risos) 
­– Tá puto....Seu Ramiro....tá puto.(risos)

– BOOOOORA NEIDE!!!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Quina Petróleo



- E aí Braga, quer que eu tire as costeletas?
- Pode tirar...Só chama atenção para a brancura das cãs.
  Pode tirar!
- Vou ali na pia limpar o pente da máquina. Só um instante...
- Fica à vontade, Seu Mateus
*
(Entra na minha casa, entra na minha vida)
*
- E da Dona Ruth, como está?
- Minha mãe tá ótima...Toca ainda que é uma maravilha.
- Você nunca levou jeito...
- Ah...nunca...Seu Mateus...Meu negócio é pandeiro, mesmo.
- E senhora sua esposa? Juliana...
- Não...Juliene....Ah....tudo bem. Todo mundo confunde mesmo...
  Tá bem...tá bem...Vai ver a mãe no nordeste este final de semana...
  Vai ficar dois dias. Mas pra mim...vai ser descanso (risos)
- (risos) Braga...Braga sossega o faixo....
- Você sabe que eu sou tranquilo...Só não me provoca...
- E a sinuquinha?
- Firme e forte! Taí um troço que eu não largo...
*
(...sara todas as feridas....me ensina a ter santidade....)
*
- Um homem se conhece pelos vícios....
- Não é vício...é hobby. Fica mais chique...hobby
- (risos) Quando eu era do mundo...Já joguei muito com este aí...
  (aponta com o queixo para o lado)
- Baiano? Baiano é pato...Seu Braga.
- Cuida do teu serviço...rapaz.(risos)
- Como o senhor aguenta trabalhar do lado do Baiano estes anos todos,
   Seu Mateus?
- Caridade...meu filho...(risos)
- Ô Baiano...pra te aturar só por caridade...Crioulo flamenguista do cacete...
- Deixa eu cuidar do meu freguês...Senhor vou passar o talco que terminou


(Por que o Senhor é o meu bem maior...Faz um milagre em mim...)


- Aqui é o único lugar que eu vejo lado a lado um macumbeiro flamenguista
  e um crente bacalhau!(risos)
- Quina Petróleo...
- Pode passar... seu Mateus


(Acabamos de escutar Regis Da...)


- Seu Mateus, o senhor usa Quina Petróleo há anos...alguém usa mais isso?
- Caprichos da profissão...
- Olha lá o Zé Trindade passando...envelheceu cedo...cedo
- São os vícios...
- Daqui o senhor vê a rua toda....
- Visão privilegia da vida dos outros (risos). Deixa eu pegar talco...


(Deus dá vitória, pra quem lutar com fervor...)


- Tá pronto!
- Seu Mateus...O senhor é um artesão do cabelo!
- Nada...Deixa eu tirar o pano...com calma pra não cair cabelo na calça....
- Toma! Fica com o troco. Vou andando que ainda tenho que pegar duas conduções...
- Ué, você não mora mais em Madureira, não?
- Não...tô morando no Encantado...
- Mas vem de tão longe.
- Pois é...são meus vícios seu Mateus. Aqui eu não corto o cabelo...
  Faço higiene mental...Fica com Deus, seu Mateus.
- Ele conosco. Até mês que vem...

quinta-feira, 14 de julho de 2011

BOM DIA, ALEGRIA!



 –  Agora vamos ligar para mais uma ouvinte.
     Não diga ‘alô’. Diga: Bom Dia, Alegria!
*
Tuuuu. Tuuuuuu. Tuuuuuuuu.
–  BOM DIA, ALEGRIA!
–  BOM DIA, MEU OUVINTE AMADO!
–  AHHHHH, AHHHHHH, AHHHHHH, MÃE! MÃE!
–  BOM DIA OUVINTE! Com quem eu falo? Com quem eu falo?
–   AHHHHHHH, AHHHHHHH!!!!
–   Mas calma! (risos) Mas calma! (risos) Com quem eu falo?
– AHHH! Desculpe....Fala com a Fátima!
–   E fala de onde Fátima?
–   AHHHH! Vaz Lobo!
–   Calma, (risos)  Fátima! FATIMA DE VAZ LOBO! BOM DIA, VAZ LOBO!
     Quem está aí com você Fátima?
–   Ahhh! Desculpe! Minha mãe e minha irmã!
–   E você Fátima, ouve a gente todos os dias?
–   Ouço, ouço sim!
–   E quanto anos você tem Fátima?
–   Dezenove!
–   Dezenove aninhos! Casada, solteira ou tico-tico no fubá, Fátima?
–   Tico-tico (risos)! BEIJO ARNALDOOOOO!
–   Arnaldo é o nome dele, Fátima. Bom dia, Arnaldo!
*
  (solta a vinheta: Tico-tico no Fubá.)
    Me diz, uma coisa Fátima...Você escuta a gente todos os dias?
–   Sim! EU TE AMO FERNÃO FERNANDES!!!!
–   Calma...Assim o Arnaldo vai ficar com ciúmes!
     Mas diz uma coisa, Fátima. Você escuta a gente todos os dias?
–  Escuto! (Eco na voz)
–   Faz uma gentileza, Fátima! Abaixa um pouquinho o volume do
     seu rádio e me escuta só pelo telefone, viu!?
–   EU TE AMO FERNÃO FERNANDES!
–   OBRIGADO, FÁTIMA! Vamos à pergunta da hora? Vamos?
 –  VAMOS!!!! MÃE!!! DINHA! DINHA! ME AJUDA!!!
–   Oi, FÁTIMA! Pode pedir ajuda, viu?!
    Posso perguntar? Posso perguntar?
–   PODE!
–   Atenção, hein, Fátima de Vaz Lobo!
     Você gosta do Fábio Junior?
 –  Acho, cafoninha, mas gosto!
–   Cê, acha o Fábio Junior cafona, mas gosta (risos)!
–   Gosto! É aquele do ‘Sábado’, né?
–   Não Fátima, esse é o José Augusto!
–   Aiiii, desculpa! Que mico!
–   Ai, ai, aiii. (risos) Fátima!
    Me diz uma coisa, vamos à pergunta da hora?
–   Vamos! Pode ser do MC Digão?
–   Não, Fátima! Aí fica muito fácil! Acabamos de tocar o MC Digão!
–   Tá bom, solta o cafoninha, mesmo!
–   Vamos lá...A música do José Augusto....
–   Ué? Não era o Fábio Júnior?
–   Nossa... desculpa, Fátima!...A música ‘Abre Coração’...
–   Ei, essa música eu sei. Essa eu sei! É do Marcelo!
–   Marcelo, que Marcelo, Fátima? (risos) Aí de Vaz Lobo?(risos)
–   Não Fernão. É do Marcelo mesmo!
–   Não Fátima. É da banda Cheiro de Amor!
–   Não, Fernão. É do Marcelo, mesmo!
     É essa pergunta? Essa é a pergunta? É pegadinha, né? Pegadinha...
–   (risos) Alô, Marcelo de Vaz Lobo! É colega da Fátima de Vaz Lobo (risos)!
–   Fernão! Cê não tá entendendo... É do Marcelo mesmo! Do Marcelo e do
    Jim Capaldi!
–   Ah! Sim...Agora vejam vocês...(tom mais baixo)
*
 (mudo)
–   Alô, Fernão, Fernão?? FERNÃO?
–   Oi Fátima...(risos) A produção me falou...
     Oi produção? Vamos à pergunta então....
–   Olha Fernão eu já acertei!  Abre Coração! Do Marcelo e do Jim Capaldi!
*
 (Microfone mudo. Estúdio)
 –   Produção do que é que esta criatura tá falando?...
  (Abre o microfone)
*
 – Vamos lá, Fátima de Vaz Lobo, pra ganhar a camisa e os convites...
–  E aí, acertei!? Mãaaaae, traz a capa do disco do Marcelo! É pegadinha, Mãe!...
*
(Produção em Off).
                                Fernão. A menina tá certa! A música “Abre Coração”
                                é do Marcelo e do Jim Capaldi. De oitenta e dois.
                               É do o Disco “Jogo de Espelhos”, a última música do lado B.
*
– Alô Fátima! FATIMA  DE VAZ LOBO?
– Oooiii! A música é do Mar....
  Tush! Tush! Tush!Tush!
 Ah! A ligação caiu! Que pena!!! Vamos pro outro ouvinte!
  Não diga “Alô”. Diga: BOM DIA ALEGRIA!

sexta-feira, 1 de julho de 2011

GATO NET E WI-FI

- E a parada tá de pé?
- Tá! Vamos fazê amanhã?
- Vamos! Ó a gente passa alí por traz, pelo basculante...fica na moral.
- Num vai dar merda não?
- Não, vai não...passa alí pelo basculante, fica um pedacinho de fio pra fora, só.
- Quinze, quinze, então!
- Quinze, quinze, fica bom pra tudo mundo.
- Tem os preguinhos aí...
- Tenho, sobrou de quando eu fiz aqui em casa.
- E os moleques tão bem?
- Tão bem, tão....O Gustavinho tá na escola. O Marquinho tá comendo com a mãe dele.
- Então tá bonito...
- Valeu. Ó, tu almoça aqui comigo amanhã...
- Não vai incomodar não...
- Nada, rapaz. Ó, as "ampolinhas" já estão no gelo. Não vou nem beber hoje pra te esperar.
- Ah Mané! Depois eu te dou a senha do Wi-Fi.
- Tem erro não...Amanhã tu me dá. A Roberta que tá enchendo saco. Ela ganhou negócio de...
  Como é mesmo....netbook. Ganhou lá no trabalho. Prêmio de vendas.
  Aí ela tá doida pra usar a internet. Discada é uma merda...e o outro não leva pra cozinha....
- É rapidinho ela vai gostar...pega o sinal aí com certeza. Pega no portão. Então paga aí, também.
- Mas valeu véio. Deixa eu ir lá que eu ainda vou pra "Big Fild" botar uma persiana pra minha irmã.
- Dez horas então...
- Tá bonito. Vai ficar legal. Ó a gente passa por alí por traz, no cantinho. Na encolha, fica na moral.
- Tá passando o Brasileiro.
- Tá...Tá. Ó mas cuidado que meia noite entra o canal de sacanagem, heim! Entra do nada.
- É tô sabendo...
- Mas valeu, amanhã a gente faz a parada e bebe uma geladinha.
- Valeu, valeu!
- Valeu, valeu!
*
*
*
*
- Roberta! Desliga a televisão da sala, pô! Tu "num" tá na sala. Tem sócio da "Light" aqui, Roberta!?
  Merda!


- Bzzz. A Polícia Federal estourou mais uma central clandestina de TV à cabo, em Ricardo, zona no norte do Rio. Segundo...
OFF.

TEREZINHA

- Terezinha, esta não presta. É vagabunda!
   Nunca prestou, minha filha
- É...
- Nunca serviu pra nada. Não sei como casou o Gilbertinho.
  Filho do seu Gilberto, o sapateiro.
- Mas parece...
- Parece nada...É verdade! Essa conheço de outros carnavais
- É mas a...
- Nem mais nem menos. Num presta mesmo. Sempre deu como xuxu na serra.
  Há o Gilbertinho... Mas gosta dela né? Fazê o que?
- É...
- Ai! Me machuquei de novo neste muro. Ô Galiano, GALIANO!
  QUANDO É QUE VOCÊ VAI VER ESTE MURO, GALIANO!?
- Seu Galiano tá bem?
- Tá bem! Só fica na garagem com aquele fusca! Deus que me livre!
  Mas Terezinha né? Se deu bem! Gilbertinho...Beleza de menino.
- É...
- Ô Roberta...Cê vai passar pelo campinho, minha filha?
  Proveita e chama o Luizinho pra tomar banho pra ir pra escola. Diz que eu tô chamando!
- Tchau, Dona Dinah.
- Vai com Deus, minha filha.
*
*
*
*
*
*
- LUIZINHO, Ô LUIZINHO!!!!
- QUIÉÉÉÉ!!!
- TUA MÃE TÁ TE CHAMANDO PRA TOMAR BANHO PRA IR PRA ESCOLA!!!!
*
*
- Oi Dona Terezinha, bom dia...

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Alegoria I


crédito imagem: http://br.olhares.com/nu_a_janela_foto4654861.html

Alegoria - assim tua parte de viver
Como a arte te traria algum dia
Prefere então por assim dizer
sorrir e se vestir de ser

Como o amarelo combina com teu andar
Como o verde no teu falar
Como o sem cor na tua alma invisível

Mas se lá fora carros cinzelam o vento ao bel prazer
Algum tipo de lição eu poderia tirar disto tudo

Então põe pluma, põe
                                   [pode por!]
Põe salto, põe
Se tiver de aplaudir, eu aplaudo.

Puta que Pariu!

Com quantos puta-que-paris se escreve uma linguagem morta
ossuda, acéfala de sentimentos, pobre, insípida, ressequida

Com quantos puta-que-paris dedos em riste, cuspidas na cara
perdigotos espermatozóicos na verborragia instantânea

A raiva ao abrir o vidro do carro do ônibus dos óculos
Nas filas, nas vidas vilas vielas aquelas que enervam

Com quantos puta-que-paris dará o resultado
O salário atrasado, o gol anualdo, o fim inesperado
da novela, da cela da cena do problema rarefeito

Com quantos puta-que-paris e ainda, não verei eclipse
apenas elípse daquilo que resta  se presta
na fresta que o tempo mela na poeira cinzoplástica
Elástica no sobrevôo do helicóptero sobre a favela

Puta que paralítica política de impossibilidades
A beleza puta das esquinas das cidades
A destreza puta que consomem as idades
Pariu do quanto a pura que pura que pura que pura

Teu chefe não gostou do projeto
Tem vazamento no teu teto
Caiu um Boing em Berlim

Puta que pariu! meu irmão! Puta que pariu!

Gritei na Janela

Eu estava sob clara incontinência de quem bebe vinho
A certeza da razão demolida, a perda das amídalas
De tanto gritar em janelas desconhecidas e sozinho
Sozinho, ausente de paredes sólidas e bengalas amigas

Tudo naturalmente planejado para dar errado
A vida profunda na cidade atormentada de respostas
A violência, a concorrência, o trânsito parado
Aquela desvontade medonha de para tudo das às costas

Mas se desistir de amar - não sou eu, serei o vizinho
Mas se desistir de lutar - não sou eu, serei o outro
Apesar de no outro me reconhecer mais que comigo
Comigo me encontro mesmo com algum esforço

É por isso que pago minhas contas e bebo Cabernet
Me dou ao direito de pagar ainda mais pra ver
Por que sei que sou explorado mais do que devia
Mesmo que não valha mais a mais valia

Mesmo que de tantos direitos escritos me respaldem
Me multam e querem cheirar meu hálito
Me impostam os impostos - a bunda me apalpem
Me taxam até os ossos e ainda deixo barato?

A janela é minha - gritei de madrugada
Ninguém escutou - não houveram comentários
Não pixei a Igreja, nem o Governo, nem a politicada
Apenas um grito - uma escarrada - de alma e bile incendiários

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Poema Touch Screen



Oh! Eu toco e ele vira
                                                                   Oh! Eu toco e ele volta
Oh! Eu toco e ele acende
                                                                   Oh! Eu toco e ele vibra
Oh! Eu toco e ele toca

Só o espírito não se toca...

Se liga, hein, espírito...

terça-feira, 21 de junho de 2011

A morte



Eu, sinceramente, não sei o que a morte significa
Quem sabe?

Abro a janela: automóveis anônimos, contruções vazias, árvores órfãs

Sinceramente, o que sigfinica a morte?

O céu pode estar lúcido de azuis - mas não vejo além do céu
Não vejo o subterrâneo do mar, nem o subterrêneo dos corações
A quem eu vou prestar contas a não ser com as minhas perdas.
A música do tempo poderia estar sempre afinada nos meus ouvidos?


O que a morte significa? Não sei.
Sinceramente, não sei.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O DESAPARECIMENTO DA LETRA

A letra só me cai bem
Quando caio nela
Quando cá nela
Cheira canela
Canela
Canela

A letra preta some do poema
Quando verso queima
Quando inverto ela
Quando inverto ela
Quando invertê-la

A letra desaparecida
Quando surge aguerrida
Quando querida
Quando querida
Quando querida
Quando queira.
Letra foi – ida.

A letra, enfim, é o próton do poema.

DIALOGANDO COM O MUNDO

Hoje tentei dialogar com o mundo
Mas não entendi o que ele dizia
Tentei dialogar, mas não compreendia

Tantas guerras a travar
E outras que já tardiam
Tanta paz a conquistar
E ideologias à revelia

Hoje tentei dialogar com o mundo
E os xiitas tortos de hipocrisia
Queriam arrancar da voz
A atroz verdade que se consumia

Inferno é o mundo que não dialoga
Ou o céu é a língua que se calaria?

Diante de tantas vozes
Talvez uma que eu entendia
De buscar na mentira da arte
E essência de alguma utopia

Eu faço minha parte
Na beleza da filosofia
Mesmo que ninguém me escute
Nem perscrute minha poesia

Mas se alguém do mundo me propuser
Mesmo sendo um Zé qualquer
...dialogaria.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

ME DÁ UM CIGARRO, PORRA!


 _ Me dá um cigarro, porra!
                                                                                                                                                                      
 11:05 pm
“Beber uma cerveja bem gelada, dar aquela paquerada/
junto com rapaziada..”
Txxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

“What’s the frequency, Kenneth?”
Txxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

 _ Me dá um cigarro, porra!
            Estação Catete, desembarque obrigatório pela direita

“And when the words
They fall apart
When the walls come tumbling in
Though we may deserve it
It will be worth it”

Txxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

 _ Me dá um cigarro aê,  porra!

“Não vou ficar sozinho/ é de ladinho que eu me acho...”

Txxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

“Me leva que eu vou, sonho meu/ Atrás da verde rosa só não vai...”

 _ Me dá um cigarro, porra!
            Estação Estácio, estação de transferência para linha 2/ Desembarque obrigatório pela direita.

Txxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

“All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very unnecessary
They can only do harm”

 _ Me dá um cigarro, porra!
...daqui há alguns instantes passará o último carro para linha 2/ A linha 1 encontra-se inoperante

11:35 pm
 _ Não fumei ainda, nada.

Txxxxxxxxxxxxxxxxxxx

“Never again
Is what you swore
The time before”

Txxxxxxxxxxxxxxxxxxx


(Escrito originalmente em 07/11/1999)

SIGNO

Alguns signos visito invariavelmente:
            “alma”, “tráfego”, “urbano”, “beijo”, “amor”
                       destes que qualifico como essência,           
                                mesmo que soe endo-paródia
                                          mesmo que seja um lítero-decalque de mim mesmo.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Código Binário



                     01110110011010010110010001100001                      01100011011011110110111001110011011101010110110101101111
01001101
01001111
01010010
01010100
01000101

Life can not be reduced to this

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Cópia Fiel


         A narrativa linear num recorte da vida e o jogo que se pode propor neste fragmento é a proposta mais significativa de Cópia Fiel de Abbas Kiarostami de 2010. Assim como um poema, o filme não pretende reduzir-se à sua forma e sim às consequencias interpretativas. Assim como discute-se o original e o simulacro, discute-se a representação dos papéis que nos impomos e se, de alguma forma, podemos reinterpretá-los.
       
        Sendo lúdicos ou teatrais o casal Professor James Milles (o cantor barítono William Shimell) e a dona de uma galeria de arte Elle (Juliette Binoche, de Cache, Chocolate, A Fraternidade é Vermelha, dentre outros) enreda-se em diálogos/cenários onde a mesa de um restaurante, uma praça, o interior de um carro, são cenários para construção de uma intimidade/identidade. Uma intimidade desenhada à lápis por Kiarostami que pode ser apagada e realinhada num processo tão natural que a linearidade espaço-temporal pode ser tanto um caminho sinalizado como um atalho obscuro. Uma intimidade falada em três linguas inglês, francês e italiano. Uma intimidade posta à prova na memória real e na memória pinçada. Uma versão de amor de um amor original que pode ou não ter existido. A beleza está no aqui-agora da simulação. Juliette Binoche levou o prêmio de Melhor Atriz em Cannes, 2010. Bellisimo!

FÓRMULA

Fragmentos de sentidos nus - poema
Gema de raro esplendor   - tema
Gênio de um argumento - ela
         Momento de abdução - instinto

Minto que sei sobre as coisas da vida
e acredito na vida livre
Das amarras da razão que um dia parti
calabouço de sonho que um dia saí

Não sei se a temperança
é uma dança que aceita par
Não sei se a libra balança
justiça de um mesmo lugar

Mas sei que viver é busca
d’alma rebrilhando seu afã
como uma poesia morta
ressuscitando na manhã.

(Escrito originalmente em 08/09/99) 

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Tem Gente



Tem gente pra caralho no mundo - eu sei!
tem gente pra caralho no mundo - neguei!
tem gente pra caralho no mundo - peguei!
tem gente pra caralho no mundo - postei!

Cidade cabe na palma da mão
Cidade cabe na palma da mão
Cidade cabe na palma da mão

Tem gente que come terra
Tem gente que bebe mijo
Tem gente que come merda
Tem gente que come detrito

Tem gente pra caralho no mundo!

terça-feira, 10 de maio de 2011

Cansei...


Nesta madrugada - obturados gases asfásticos
Nesta madrugada - néons absolutos e obsoletos
Nesta madrugada - boates subterrâneas

Com a cocaína mais barata - piratas, aventureiros, amadores
Com a cocaína mais barata - abadás desfilam na Lapa.

Nesta madrugada - um corte profundo na garganta
                              sangrei, mas não o suficiente
                              não gravei, nem postei no facebook
                              foi rápido demais
a festa acabou?

'Cause I'm just a soul whose intentions are good
Oh, Lord, please don't let me be misunderstood

sábado, 7 de maio de 2011

O REI MORREU

Mort de Napoléon Ier à Sainte-Hélène - Carl von Steuben


O rei morreu
O povo sofreu
Nunca houve estadista como aquele
E desapareceu
O luto comoveu
O reino está acéfalo sem ele
Suas pontes, seus canais
Aquedutos colossais
As ruas estão mais limpas
Nossos ramos tem flores
Nossas praças coloridas, mais amores

O rei morreu
O mundo sucedeu
Quem vai consolar as nossas dores
Quem prometer mais moradias
Quem vai pagar melhor os professores
Quem vai construir mais hospitais e evoluir
Nosso país à condição dos vencedores...

O rei morreu
Tudo desapareceu
Suas promessas de dias frutuosos
Seu discurso era tão lindo
Os seus ternos luxuosos
Seus brazões cegavam bem os nossos olhos

Nosso esgoto está mais preto
Nosso povo tem mais fome
Sem nem do discurso vive o pobre
Vai morrendo em sua terra sem nome
Na desesperança agora mais podre
Agora sem luz, agora sem o brilho da torre
Chafurdaremos todos em nossa miséria
Que antes era mais bela - até poética
E agora a pátria cética - chora estérica
O rei morreu! O rei morreu!